A doença celíaca trata-se de uma doença auto-imune causada pela permanente sensibilidade ao glúten que ocorre em indivíduos geneticamente suscetíveis. Apesar do seu aparecimento ser geralmente entre os 6 e os 20 meses, de acordo com a Associação Portuguesa de Celíacos (APC) atualmente a incidência em adultos é mais frequente do que em crianças e 25% dos novos casos diagnosticados ocorre em indivíduos com mais de 60 anos

Num doente celíaco a ingestão de glúten (que corresponde a um conjunto de proteínas que se encontra no trigo, centeio, cevada e em menor proporção na aveia) desencadeia uma inflamação na mucosa do intestino delgado que prejudica consequentemente a absorção de nutrientes. Os sintomas são distintos de acordo com a idade.

 

CRIANÇAS

Diarreia crónica/ obstipação

Vómitos

Distensão abdominal

Perda de apetite

Perda de peso

Atraso no desenvolvimento

Alterações de humor/ irritabilidade

ADULTOS

Anemia ferropénica

Infertilidade ou abortos espontâneos

Baixa densidade mineral óssea

Fadiga crónica

Aftas recorrentes

Alterações dermatológicas

Depressão, irritabilidade

TABELA 1 (fonte APC)

A prevalência real da doença celíaca é difícil de assinalar uma vez que os sintomas são pouco específicos. De acordo com a APC existem apenas cerca de 10 mil celíacos diagnosticados e estima-se que existam entre 70 mil a 100 mil celíacos por diagnosticar em Portugal. Isto significa que a doença ainda se encontra muito subdiagnosticada.

Uma dieta isenta de glúten continua a ser o único tratamento da doença celíaca.

Dentro das várias opções de alimentos sem glúten podemos distinguir aquelas que são naturalmente sem glúten (como arroz, milho, batatas, pseudo-cereais – como a quinoa sementes e leguminosas; TABELA 2) e aqueles que são feitos sem glúten através de processos industriais e que apresentam geralmente composições nutricionais com mais gordura, açúcar e aromatizantes e mais calorias do que as versões tradicionais. São estes últimos que podem ser um dos motivos para um aumento da frequência de casos de excesso de peso e obesidade em doentes celíacos nos últimos anos.

ALIMENTOS QUE CONTÊM

GLÚTEN

Cereais e derivados de trigo, aveia, cevada ou centeio

Iogurtes com cereais

Produtos de salsicharia (ex. farinheira)

Pão, bolos e bolachas

Molhos industrializados (ex. Maionese)

Cerveja, whisky, vodka, gin

ALIMENTO ISENTOS

DE GLÚTEN

Farinhas, amidos e derivados de milho e arroz

Leite, iogurtes naturais e queijo

Carne, peixe e ovos

Leguminosas, legumes e frutas

Açúcar e mel Vinho

TABELA 2

No entanto esta doença pode também originar deficiências nutricionais devido à exclusão de alimentos e à fraca absorção intestinal. As principais deficiências desta dieta são em fibras, zinco, magnésio e selénio que podem contribuir para o desenvolvimento de diversas patologias. Os suplementos alimentares podem ser uma estratégia para prevenir estas deficiências. Contudo, é importante procurar aconselhamento junto de um profissional de saúde, nomeadamente nutricionista ou farmacêutico, para garantir que os suplementos são isentos de glúten.

Assim, para garantir que a dieta não é apenas isenta de glúten mas também é saudável e adequada às necessidades individuais é recomendado o encaminhamento para um nutricionista. Além de ser realizado um plano alimentar é também possível ensinar o paciente e a família a ler rótulos alimentares e a escolher os alimentos sem glúten como ingrediente principal ou componente “escondido” bem como a confecionar refeições sem risco de contaminação cruzada. Todo este acompanhamento é essencial para garantir a adesão ao plano e promover uma melhor evolução do estado de saúde.

Referências:

Bascuñán KA, Vespa MC, Araya M. Celiac disease: understanding the jluten-free diet. Eur J Nutr. 2017;56(2):449-459.
Penagini F, Dilillo D, Meneghin F, Mameli C, Fabiano V, Zuccotti GV. Gluten-free diet in children: na aproach to a nutricionally adequate and balanced diet. Nutrients. 2013 Nov 18;5(11):4553-65. doi: 10.3390/nu5114553.
Stazi AV, Trinti B. Selenium status and over-expression of interleukin-15 in celiac disease and autoimmune thyroid diseases. Ann ist Super Sanita. 2010;46(4):389-99.
Wierdsma N. J. et al. Vitamin and mineral deficiencies are highly prevalente in newly diagnosed celiac disease patients. Nutrients. 2013: 5(10):3975-3992.

Este artigo é parte integrante da edição 78, ainda nas bancas.

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