Viagem por territórios de abandono, pelas margens do Rio Bestança, um dos menos poluídos da Europa, pelas aldeias culturais e pela história de Cinfães, à qual estão ligados personagens proeminentes como Serpa Pinto e D. Afonso Henriques
A natureza em todo o seu esplendor

O fumo da neblina começa a desprender-se sinuosamente das árvores e, a pouco e pouco, o manto branco permite que os raios ainda pálidos do sol matinal se projetem sobre as águas cristalinas do Bestança, o rio que corre exclusivamente em terras cinfanenses antes de desaguar no Vale do Douro. Um passeio pelas suas margens, agora sob uma imponderável luminosidade, revela a beleza harmoniosa de uma paisagem onde se destacam os socalcos de pasto e cultura agrícola moldados de forma hábil, os moinhos de água em pedra, as pontes construídas em madeira local e, aqui e acolá, disfarçando-se entre a natureza inalterada ao longo dos séculos, uma ou outra casa em pedra com madeira sobreposta, exemplo típico da arquitetura tradicional de Cinfães.
Com todo o tempo para conceder ao destino, mergulhado no silêncio apenas quebrado pelo chilrear de um pássaro que atravessa os céus como um risco veloz, vou pousando olhares compenetrados nas quedas de água, nos lagos e na vegetação que exala um odor primaveril, na pureza que caracteriza uma região praticamente órfã de indústria. Ao longo do trajeto, mais ou menos dissimulados entre a paisagem, são visíveis vestígios medievais e calçadas pré-romanas que delimitam as rotas pedestres. Num outeiro sobranceiro a uma das margens do Bestança, foi edificado o Castro das Coroas, um povoado fortificado que algumas teses defendem remontar à Idade do Bronze e que ainda hoje conserva um conjunto de torreões e as quatro linhas de muralha, bem como algumas gravuras rupestres, um forno cerâmico e duas furnas abertas nas rochas.

O Vale do Bestança, pouco ou nada exposto à ação humana, beneficia da abundância de água dos cursos afluentes que é proporcionada pelo substrato granítico de todo o vale para potenciar uma tonalidade verde natural e um cenário magnificente. Escutando o borbulhar da corrente, sento-me sobre uma pedra que o tempo se encarregou de alisar e não hesito em comparar o quadro que se me oferece à contemplação, numa quietude sonhadora, a um jardim incrivelmente viçoso através do qual vai serpenteando, ao longo de pouco mais de 13 quilómetros, o rio que nasce na Serra do Montemuro e beija as águas do Douro em Porto Antigo. Um e outro, a Serra do Montemuro e o Vale do Douro, são na verdade os dois eixos morfológicos que conferem ao concelho características de inigualável beleza e diversidade. Numa área montanhosa e acidentada, pincelada de vales profundos e encaixados, a serra, onde predomina o granito, tem no Pico do Talegre, a 1382 metros de altitude, o seu ponto mais elevado e daqui, beneficiando de uma luz quase diáfana de tão delicada, pode avistar-se as serras de São Macário, Caramulo e Estrela.
Num concelho com uma fraca densidade populacional (apenas 90 habitantes por km2) e que se estende pelo dorso da vertente norte da Serra do Montemuro, uma das sete mais altas do país e a terceira mais alta a sul do Douro, não faltam atrativos para quem é amante da natureza e das caminhadas. Na zona da cumeada, precisamente onde nasce o Bestança, junto ao local vulgarmente designado por Portas, pontifica uma estranha muralha em pedra com várias edificações dispersas por entre as rochas da montanha. Em rigor, desconhece-se a função e a cronologia do espaço, mas há quem defenda tratar-se de uma zona de proteção do gado – de ataques de animais ou das intempéries – ou de uma espécie de portagem, uma vez que delimita os concelhos de Cinfães e de Castro Daire. Basta percorrer alguns quilómetros, sempre ao longo da serra, para se chegar a algumas das aldeias culturais do Montemuro, como Vale de Papas, Bustelo da Laje, Aveloso ou Gralheira, lugares que fazem a alma transbordar de recordações de um passado que se vai diluindo no presente, na globalização que por aqui, nestes territórios que por vezes parecem de abandono, ainda encontra forte resistência. As gentes da serra conservam a sua essência e, de forma genuína, estendem o convite ao viajante para retroceder no tempo, tanto histórico como de valores, oferecendo uma hospitalidade que facilmente nos suprime o coração. A Serra do Montemuro é também uma das melhores do distrito de Viseu para observar algumas das espécies características de zonas de altitude. Na Gralheira, por exemplo, uma das aldeias mais altas de Portugal, a 1100 metros de altitude, é possível avistar a alvéola-cinzenta, enquanto num vasto planalto, dominado por giestas e terrenos abertos, na zona envolvente da aldeia, pode ver, com um pouco de sorte, sobretudo entre maio e julho, a ferreirinha-comum, o papa-amoras, o pintarroxo, a petinha-dos-campos e a sombria. Uma incursão pelo planalto central da serra permite, agora que a primavera começa a despontar, o contacto com outros passeriformes, como a codorniz, a laverca e o cartaxo-comum. A pesca e a caça são as principais atividades de lazer, mas Cinfães, cujo concelho é atravessado por vários cursos de água, oferece igualmente condições para a prática de desportos náuticos, de recreio e de competição, por via da perfeita disposição da albufeira da Barragem de Carrapatelo, uma das mais imponentes do Douro Internacional, e os portos de amarração e acostagem de Escamarão e Porto Antigo.

Ligado à história
Os ramos das tílias são fustigados por um vento dócil e homens e mulheres, recebendo os raios tépidos do sol e vestindo as suas melhores roupas, preparam-se para penetrar no interior da igreja para assistir à celebração dominical. No jardim contíguo, as crianças brincam despreocupadamente perante o olhar atento dos pais, debruçados sobre as grades de onde se avista o Museu Serpa Pinto. Situado numa das zonas mais antigas da vila, bem preservada e alvo de recentes melhoramentos, o museu é um espaço humilde que se encarrega de promover a cultura regional e onde funciona também o posto de turismo. Aqui, onde viveu Serpa Pinto, estão patentes algumas exposições, parte do espólio que pertenceu ao intrépido explorador, exemplares das primeiras edições dos seus livros, telegramas, objetos pessoais e profissionais, reproduções de uniformes, bem como acervo arqueológico encontrado durante escavações e investigações em algumas das aldeias do concelho e respeitantes a vestígios da época da expansão do Império Romano. Natural de Tendais, freguesia do concelho de Cinfães, Serpa Pinto foi a personagem mais proeminente na história local – militar de carreira, foi designado para liderar uma expedição científica a África, tendo como objetivo atravessar o continente africano, do Atlântico ao Índico, missão que executou com sucesso e ainda hoje é referida pelo valor inquestionável para a sociedade geográfica e conhecimento/cartografia de um território então por descobrir.
Mas Serpa Pinto, cuja imagem se destaca numa estátua no jardim que envolve a igreja ou num conjunto de azulejos que encima um muro que protege os «tanques do tribunal», onde em tempos idos se juntavam as lavadeiras, não é o único nome de relevo associado à história de um concelho com pouco mais de 20 mil habitantes (a vila tem uma população que ultrapassa ligeiramente as três mil almas). Também D. Afonso Henriques, acompanhado do seu aio, Egas Moniz, viveu parte da sua juventude em Santiago de Piães e deixou alguns dos seus bens à Herdade Real de Tarouquela, uma das 17 freguesias do concelho de Cinfães, a quem foi entregue, em Lisboa, por D. Manuel I, em 1513, há precisamente 500 anos, o foral. Ligado aos Templários, que aqui ergueram algumas fortalezas, como a Torre da Chã e a Torre dos Pintos, Cinfães tem também alguns monumentos que justificam uma visita, como acontece com as igrejas românicas de São Cristóvão de Nogueira (esta do período tardo-românico), de Cádiz, de Nossa Senhora da Natividade, em Escamarão, e a de Tarouquela, todas elas em pedra e em perfeito estado de conservação.
Sob os raios do sol poente, depois de errar como um vagabundo por lugares bucólicos, deito um olhar à majestosa ponte de pedra da Pala, espero a passagem do comboio e, tendo o Douro como companhia, à minha direita, detenho-me a escutar os raros e fracos sons antes de atravessar a ponte que leva a assinatura de Edgar Cardoso. Ao fim de alguns minutos, em Pias, estou de novo entregue à minha solidão, observando, como um turista num museu, as árvores vestidas de cima a abaixo, toda aquela vegetação trepadora que parece lançar um olhar sobre as águas límpidas do Bestança, um dos rios menos poluídos da Europa.

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